Charmosas e acolhedoras, vilas têm até fila de espera

  • Por Secovi Rio -


Segundo o Secovi Rio, o metro quadrado não sai por menos de R$ 10 mil, em média

RIO — Em meio ao burburinho de uma cidade grande como o Rio, elas são uma espécie de refúgio onde muitos escolheram viver e trabalhar. Ou as duas coisas, quando possível. As vilas estão escondidas por várias partes. A procura por casas nessas localidades sempre foi grande e, atualmente, mesmo num momento de crise econômica, tem fila de espera.

— Temos uma clientela cativa de vilas. Quando uma das casas está disponível, vendemos em dois ou três meses, no máximo. Existe uma procura por imóveis antigos, bucólicos e interessantes — afirma Cláudio Castro, diretor da Sérgio Castro Imóveis, comentando que, atualmente, por menos de R$ 1 milhão dificilmente se consegue comprar uma casa numa vila da Zona Sul.

Leonardo Schneider, vice-presidente do Sindicato da Habitação (Secovi Rio), confirma o valor, lembrando que, na região, o metro quadrado não sai por menos R$ 10 mil, em média. Mas os valores do imóvel dependerão da localização, do tipo da casa, do tamanho e do estado de conservação.

— A cidade se verticalizou por uma questão de espaço, mas as vilas permaneceram e se valorizaram. Elas são o resquício de um Rio mais antigo e têm todo um charme. Além de um baixo custo condominial, geralmente ficam em locais com toda a estrutura ao redor, com comércio e transporte, mas sem perder sua característica de tranquilidade e conforto — comenta Schneider.

Cheias de histórias em seus detalhes e vielas, muitas já foram tombadas devido a sua importância para a cidade. Segundo o Guia do Patrimônio Cultural Carioca, a Zona Sul tem cerca de 20 lugarejos tombados. Um deles fica na Rua da Passagem, em Botafogo. A Vila Abrunhosa tem 50 casas geminadas de 70 metros quadrados, com dois pavimentos revestidos em pó-de-pedra, datadas de 1932. Construída pelo português Manuel Abrunhosa, já foi residência do compositor Ary Barroso. E foi tombada há cerca de 30 anos. Ou seja, não pode sofrer alterações de qualquer natureza. Até mesmo obras que visem à conservação do local devem ter a autorização do Serviço de Patrimônio.

Ao chegar ao lugar percebe-se um pouco daquela essência de toda boa e velha vila: moradores que se conhecem e se cumprimentam, cheirinho do feijão no fogo do vizinho, brinquedos espalhados nas varandas e detalhes que despontam aqui e ali como o toque especial de cada morador do espaço. Sem falar nos gatos, personagens encontrados em todas as vilas visitadas pela equipe de reportagem.

Morador da Vila Abrunhosa há 35 anos e síndico há quatro, Neimir Ribeiro não abre mão do estilo de vida que tem no local. Para ele, trata-se de um mundo à parte.

— Fica uma sensação de que vivemos num Rio antigo. Olhando daqui de dentro nem dá para acreditar que estamos em plena Zona Sul — comenta Ribeiro.

Não muito perto dali, uma outra vila chama a atenção. Não pelo aspecto histórico, mas pelo entrosamento de seus habitantes. Localizada na Rua Lopes Quintas, no Jardim Botânico, a pequena Vila 46 é uma espécie de recanto no bairro. Uma combinação de casas e lojas que aproximou comerciantes e moradores, transformando-os numa unida comunidade. Não é raro uma pausa no trabalho para um café ou um gracejo com o vizinho. Sem falar nos almoços de fins de semana.

— Nosso entrosamento é muito legal. Às vezes fazemos um churrasquinho e colocamos uma música para dar uma descontraída e agregar ainda mais valor a essa relação. É bem coisa de vila mesmo — conta Nora Carvalho, que tem uma loja de roupas e acessórios no local há quatro anos.

Segundo ela, o maior atrativo de ter um negócio funcionando numa vila é o fato de poder dar um atendimento mais pessoal a cada cliente.

— Entrando aqui parece que se está numa casa, tem todo esse clima intimista e aconchegante. Acho que as pessoas estão buscando isso. É um contraponto à movimentação das lojas de shopping — diz ela, que também mora numa vila, só que na Tijuca. — Não deve ser por acaso, não é?

Moradora do Jardim Botânico e frequentadora da vila, Lenira Inês decidiu montar o seu próprio negócio por lá. Aproveitou que uma das lojinhas estava desocupada e sendo alugada por R$ 1.500. Apostou para investir no Costura Perfeita, que fará reparos e costuras de roupas:

— A obra está ficando linda. Estou muito animada e feliz de saber que vou poder trabalhar com amigos e em meio a esse clima de união.

Há quem goste tanto de viver numa vila que resolva aproveitar o espaço para montar o seu negócio, unindo o útil ao agradável. Foi o que aconteceu com Viviane Furtado e João Victor Lima, mãe e filho que estão na Vila 46 há três anos. No andar de baixo, trabalham como massoterapeutas. Em cima, fica a casa deles.

— É muito tranquilo, não temos problema com trânsito. Nem penso em sair dessa vida. É muito bom morar em vila, fazemos amigos vizinhos para a vida — diz o jovem.

 

 A união do novo com o histórico

A bucólica Vila Angelina, localizada no início da Rua Tavares Bastos, no Catete, não é tombada, mas preservada pela prefeitura. Ou seja, fachadas, telhados e proporções devem ser mantidos. Moradora do local há 27 anos, a artista plástica Martha Niklaus é uma das mais engajadas em manter e preservar o local contra mudanças que a descaracterizavam.

— Criamos um grupo que se fala constantemente, sempre buscando melhorias para a nossa vila. Usamos a tecnologia como aliada para preservar a identidade histórica da Vila Angelina — diz.

Dizem que a vila, datada do começo do século XX, recebeu esse nome em homenagem a uma filha adotiva de Pereira Passos, prefeito do Rio entre 1902 e 1906.

— Angelina era casada com Antônio Cid Loreiro, que tinha a cessão de exploração da pedreira do Morro da Nova Cintra, que fica nos fundos da vila. Foi ele que construiu a vila para residência de operários. As pedras retiradas desta pedreira foram usadas na construção de muitos prédios da reforma urbanística de Pereira Passos (realizada a partir de 1903) — conta Martha.

Morando na centenária casa com a filha, o marido e a shitzu Naty, Martha diz que é um privilégio poder viver num lugar sem grades nas janelas. Ela até já morou em apartamento, mas nunca se adaptou.

— Vivi alguns anos em sítio, pois gosto de ter o pé no chão e a cabeça no céu. Quando voltei, quis morar em casa, mas tinha medo de morar em beira de rua. Quando apareceu a da Vila Angelina, achei perfeita. Primeiro aluguei, depois consegui comprar — conta.

Mas, de acordo com ela, nem tudo são flores quando se trata de viver numa vila, ainda mais numa com casas geminadas. É um aprendizado, porém conviver, principalmente, com o ruído.

— É preciso ter cuidado e respeito com o outro. Quando eu faço uma reunião um pouco maior, aviso aos meus vizinhos do lado e não excedo os horários estabelecidos. Faz parte de uma boa convivência — comenta.

Nem tão antiga assim quanto a Vila Angelina, a Vila do Largo, no Largo do Machado, pode até ser mais recente, mas já tem muita história. A primeira de suas 35 casinhas foi inaugurada em 2008. O objetivo do idealizador, o arquiteto Carlos Rangel, era o de construir uma vila de casas de ofício, ou seja, espaços que servissem ao mesmo tempo como moradia e lugar de trabalho. Com valor de aluguel que varia entre R$ 1.800 e R$ 6 mil, virou um charmoso polo de economia colaborativa, artes e cultura, abrigando residências, ateliês, empresas, espaços de coworking, salão de beleza, cursos e um sempre movimentado café, que é o ponto de encontro da turma que vive, trabalha e frequenta a vila.

O tatuador Diego Campos chegou ao local há cinco anos. Ele conta que a primeira vez que colocou os pés na vila sabia que era ali que ficaria. Tanto que decidiu montar seu estúdio, Atman Tatuaria, e morar no mesmo local.

— Comecei sonhando em juntar uns amigos designers e fazer um coworking, mas acabou que segui numa carreira solo abrindo um estúdio de tatuagem. Aqui vivo num sentimento nostálgico de bairro que os condomínios não têm. Minha relação com a vizinhança é de cooperação e amizade.

(Fonte: O Globo)