Negócios no Porto

  • Por Secovi Rio -


Composta pelos bairros Gamboa, Saúde, Santo Cristo, Caju e parte do Centro, a Região Portuária do Rio tem enorme potencial para ser um pólo comercial e residencial. A região, porém, amarga o ostracismo.

Isso acontece, principalmente, pela falta de segurança em alguns trechos e pelos inúmeros canteiros de obras, que acabam afetando a circulação de clientes e, por tabela, novos investimentos. Sem movimento, a área continua deserta. É um círculo difícil de romper.

Para mudar essa realidade, o Sebrae/RJ lança neste mês uma cartilha especial para ajudar os micro e pequenos empresários que queiram investir no Porto do Rio. Entre as informações, está um mapeamento do perfil de novos e tradicionais negócios locais, orientações para abrir e manter o negócio, e também conselhos para sobreviver ao período de obras, já que este é um dos maiores entraves.

– A cartilha traz um panorama da região e também direciona as oportunidades ali, além de mostrar como adaptar os modelos de negócios para esse novo Porto e como se preparar para antes e depois das obras – explica a analista do Sebrae/RJ, Tainá Alves Souza.

Segundo ela, engana-se quem pensa que o turismo é a principal atividade. De fato, os visitantes têm peso, especialmente para restaurantes. Mas a clientela mais promissora são os profissionais do entorno.

FOCO NO COMÉRCIO

Tainá destaca que os setores de alimentação e comércio, como farmácias, consultórios médicos, padarias e salões de beleza, são bons investimentos e devem crescer nos arredores dos antigos cais.

– O Porto tem várias regiões, cada uma com um perfil. Na Praça Mauá, por exemplo, é mais turístico. Perto do Santo Cristo, está se desenvolvendo uma área empresarial. Isso vai ajudar a movimentar a região. Mas ainda é preciso segurança. O que também ajuda a movimentar a região e, assim, a atrair mais micro e pequenos empresários, são as empresas “âncoras”.

De 2016 para cá, a L’Oréal trouxe cerca de mil funcionários e a Nissan, mais 150. Outras empresas menores, mas também com clientes em potencial para os micro e pequenos negócios na região, também surgiram. Nos próximos meses, são esperados uma start up, um escritório de advocacia e a Bradesco Seguros – com cerca de três mil funcionários.

Segundo a Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro (Cdurp), há previsão também da chegada do Grupo Gramado Parks, que ganhou uma licitação para explorar a instalação de uma Roda Gigante similar à London Eye. O órgão esclarece que não pode informar os nomes das empresas que estão em negociação para se instalar no Porto, mas indica que as áreas abrangem de cultura, comunicação e pólo gastronômico a mercados, hotéis e até um hospital.

ARMAZÉNS OCUPADOS

A Cdurp ressalta, ainda, que há um projeto para municipalizar o Cais da Gamboa. O objetivo é consolidar a revitalização nos bairros da Gamboa e do Santo Cristo, e abrir espaço para uma nova ocupação dos armazéns do cais, além dos eventos de hoje. A prefeitura assumiria o terminal de passageiros de cruzeiros marítimos e ampliaria o boulevard, estendendo a Orla Conde.

Toda essa movimentação – quando sair do papel-deverá moldar um novo Porto. A empresária Mariana Espíndola, que comanda a Hummburg está anima dacoma vinda da Bradesco Seguros e os seus três mil funcionários. Ela conta que, em 2016, logo após as Olimpíadas, o movimento era maior. De lá para cá, caiu um pouco, e foi com soluções conjuntas que eles conseguiram manter as portas abertas.

– Nós mudamos o cardápio, investimos em promoções, entregas e em mais produtos artesanais. Também diminuímos afolha de pagamento e começamos uma política de contenção de gastos. Foi assim que seguramos a onda – explica Mariana.

Mariana Espíndola, da Hummburg, conta que definir bem o público (no caso, os executivos) também foi importante. Até chegar ao modelo atual, foram feitos alguns testes, como ver se uma happy hour e a abertura nos finais de semana funcionaria bem.

– Tentamos, mas não valeu a pena. O turista da semana se sente mais seguro e gosta de andar e vasculhar a cidade. Aos sábados, fica tudo mais deserto e o retorno que tínhamos não valia o custo para abrir as portas.

A falta de segurança é ainda uma questão muito forte, que impede mais fluxo e mais negócios na região. As obras também.

Por isso, além de dar apoio e orientações aos pequenos e microempresários, o Sebrae/RJ também vai oferecer consultorias para empresários que queiram ajuda para adaptar o modelo de negócio e se preparar para os transtornos e as dificuldades impostas pelas obras urbanas que ainda acontecerão em pontos da área.

A Região Portuária reúne 380 empresas com 50 anos ou mais de existência, nos mais diferentes segmentos e faixas de faturamento. Quem está nesta situação e aderiu ao apoio para atravessar o caos é Igor Gonzalez Marques, que toca a loja Principado Louças com o pai e o avô, Aníbal Gonzalez Garcia. Segundo ele, muitos estabelecimentos na rua onde estão fecharam por causa as obras do VLT.

– Nosso negócio é mais específico e temos clientes que nos procuram. Mas aqui tem muito restaurante e negócios que dependem da circulação de pessoas. Com as obras, o movimento caiu uns 10% – diz ele.

PEQUENAS EMPRESAS

De acordo com o levantamento feito pelo Sebrae/RJ, o setor de serviços representa 70% das empresas. As três áreas com maior concentração de empresas de serviços são as de profissionais técnicos (24%), administrativos (19%) e alojamento/alimentação (15%). Diante de um público de turistas e executivos e de potencial também para micros e pequenos empresários, especialmente nas áreas de alimentação e serviços, a modalidade de Microempreendedor Individual (MEI) é um caminho para profissionais autônomos investirem e, de quebra, fomentar a cadeia de serviços da região.

Nesta modalidade, a analista do Sebrae/RJ Juliana Lohmann explica que o faturamento da empresa não pode passar de R$ 81 mil por ano. Na região do Porto, 48% das empresas que se registraram últimos dois optaram pela modalidade MEI. Na cartilha, entre as orientações para abrir e manter a empresa na região portuária, está a busca por informações sobre o plano de intervenção e o calendário das obras.

Os conselhos incluem, ainda, procurar saber o que está previsto sobre desenvolvimento imobiliário e econômico para o entorno do ponto de venda e investir em boas experiências ao consumidor – como Mariana e Igor estão fazendo.

Fonte: O Globo, Raphaela Ribas, 16/9